O indivíduo e a pós-modernidade: entre o passado e o futuro da identidade, da política e do trabalho

O indivíduo e a pós-modernidade: entre o passado e o futuro da identidade, da política e do trabalho

Vivemos num mundo rodeados de opções, onde podemos – e devemos – realizar escolhas a todo instante.

A nossa civilização, em maior ou menor escala, se beneficia do privilégio de não ter seu futuro definido a partir do dia do seu nascimento, partindo de si a responsabilidade de encontrar seu próprio caminho e identidade.


Escrito por: Gisele Alves Oliveira

Estudiante del Centro de Comunicación y Letras CCL de la Universidade Presbiteriana Mackenzie, Brasil

Trabajos colaborativos de las asignaturas de Periodismo Digital entre la Escuela de Comunicación y Empresas de Entretenimiento de la Universidad Anáhuac Mayab y el Centro de Comunicação e Letras de la Universidade Presbiteriana Mackenzie.


Nossos antepassados nem sonhavam com a tamanha liberdade a qual temos acesso hoje. No passado, todas as decisões de uma pessoa eram estritamente pré-estabelecidas, tanto pela sua família quanto pelas regras invisíveis da sociedade, limitando suas possibilidades, visões de mundo e, possivelmente, um encontro de propósito.

Essa falta de liberdade de escolha é considerada pela sociedade moderna a grande infelicidade do passado. Mas hoje, com tantas opções e sem formas amplamente definidas de certo ou errado em relação à identidade e planos futuros, conseguimos obter aquela felicidade que as antigas civilizações tanto sonhavam ou só adquirimos novas formas de aprisionamento?

Esse artigo tem como objetivo analisar as relações do indivíduo pós-moderno com sua identidade, vida política e trabalho, refletindo sobre a felicidade nos tempos modernos e quais os desafios frente à liberdade que nos foi alcançada.

Sigmund Freud em “O Mal-Estar da Civilização” nos ofereceu a base psicológica para analisarmos essa antiga relação da sociedade com suas escolhas e a, até então considerada inatingível, busca da felicidade para o futuro.

Como ele mesmo aponta, “O que chamamos de felicidade consiste apenas na satisfação de impulsos e desejos, mas a civilização impõe limites a essa satisfação, criando o conflito entre o indivíduo e a sociedade” (FREUD, 1930/2010, p. 27-28). Com isso, o que Freud constata em sua obra é o nascimento do mal-estar, construído a partir da repressão dos desejos do ser humano.

Com menos opções de escolha ao longo da vida era muito mais fácil viver em sociedade, porque todos estavam “alinhados” com as relações consigo mesmos e com o mundo ao seu redor. Nada era imprevisível. Nos raros casos em que uma família tinha dinheiro para colocar o filho numa universidade, havia três opções: medicina, engenharia ou direito, sem mais.

Caso nascesse pobre, iria ajudar no trabalho que a família já exerce há gerações e, no caso das mulheres, lhes restava o trabalho doméstico. A pessoa com quem você iria se casar – não havia a opção de não se casar – deveria ser de sua mesma classe social ou, com sorte, um pouco superior. Depois viriam os filhos e o ciclo se repetiria por gerações.

Nessa civilização descrita por Freud, tudo é sólido e possui instituições e regras sociais claras que oferecem segurança, mas essa mesma segurança é a grande causadora do sofrimento dos indivíduos. As pessoas notaram que a racionalidade não tinha todas as respostas, e apenas pensar e agir de acordo com a lógica ou regras sociais não resolveria todos os conflitos, trazendo a religião como consolo.

O pós-Guerra Fria mudou de maneira permanente esse contexto. A ascensão da globalização neoliberal nos anos 1990 trouxe a sensação de estabilidade, muito por conta da conexão global, com o auge da internet, e uma economia com circulação de mercados e fronteiras econômicas abertas. Esse cenário permitiu a ilusão de um mundo sem fronteiras e de possibilidades infinitas.

Agora você define o seu caminho, sua identidade, seu trabalho e a política parece ser muito mais democrática com a internet e o fácil acesso à informação. Mas logo essa liberdade se mostrou ilusória com a queda das Torres Gêmeas nos Estados Unidos, em 2001, mudando a percepção de segurança daquele momento e mostrando que a liberdade e a interconexão também trazem vulnerabilidades.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman frisa que essa nova relação do indivíduo com a liberdade, trazida junto da tecnologia e do desenvolvimento econômico, é uma liberdade ilusória, de consumo, não uma liberdade de cidadania. Nos vemos presos à novas amarras, e a incerteza trazida pela globalização faz com que as pessoas busquem mais proteção, dando o poder para a tomada de grandes decisões (econômicas e políticas) para as grandes empresas e instituições, que detêm o capital e a influência necessárias e podem limitar a liberdade “em nome da segurança”.

Logo, em contraste à afirmação de Freud, Bauman constata que a pós-modernidade é marcada pela liquidez, onde tudo se tornou descartável e a imprevisibilidade é nossa única certeza. Mesmo com tantas opções de escolha, estamos sempre entediados. Podemos ser qualquer coisa, mas estamos constantemente infelizes, perdidos e preocupados com o peso das nossas decisões. Precisamos estar em constante adaptação e, assim que estivermos minimamente seguros com algo, logo virá outro fenômeno que nos tirará da zona de conforto.

Precisamos ter pressa para construir nossas vidas e acumular conquistas, mas sem um alicerce sólido. No fim, para Bauman, o mal-estar apenas mudou de forma, ao invés de termos repressão temos instabilidade, e o dilema permanece o mesmo.

Um exemplo desse fator apontado por Bauman, é a onda de alta rotatividade de no mercado de trabalhop para a geração Z, nascidos entre 1997 e 2012. Ao contrário da solidez profissional, explicada por Freud, esses profissionais de 20 a 30 anos não veem mais a necessidade de permanecer décadas na mesma empresa, sendo essa uma ideia amedrontadora, inclusive.

Segundo um levantamento realizado pelo LinkedIn, 68% dos jovens dessa geração no Brasil pretendem procurar um novo emprego em 2025, e dados do Conselho Regional de Administração de São Paulo (CRA-SP) mostram que essa insatisfação não é apenas em busca por salários maiores, mas uma busca por uma vida mais autêntica e menos «amarrada». Os dados ressaltam que cerca de 48% desses profissionais deixam seus empregos por conta da falta de oportunidades de crescimento e desenvolvimento profissional, e mais de 70% buscam equilíbrio entre seus empregos e a vida pessoal.

Ou seja, a ideia de “dar a vida” pela empresa sem receber nada em troca além do salário já não é bem-vista, e essas instituições não conseguem fornecer a segurança e o senso de propósito que solidificavam os laços no passado.

Nisso, o filósofo francês Gilles Lipovetsky e o professor Jean Serroy dialogam com as ideias de Bauman no livro “A cultura-mundo”. Os autores argumentam que parte da desorientação presente na nossa sociedade vem da quebra dos referenciais básicos da vida social – que antes ofereciam previsibilidade, identidade e segurança – e agora a contemporaneidade pode ser resumida em quatro pontos: o hipercapitalismo, a hipertecnicialização, o hiperindividualismo, e o hiperconsumo. Esses quatro pilares revelam que a desorientação é resultado de uma época em que o excesso e o vazio de sentido coexistem.

As fronteiras globais que se dissolveram com o neoliberalismo não tiveram causas humanistas, mas sim a intenção de criar um mercado global com consumidores universais.

No fim, Lipovetsky e Serroy apontam que não precisamos negar a cultura contemporânea, mas trabalhar dentro dela, valorizando experiências culturais, estéticas e éticas que deem mais sentido à vida do que apenas a lógica de mercado, equilibrando prazer, individualismo e consumo com uma dimensão mais reflexiva e cultural.

Para tentar chegar na tal felicidade os autores argumentam que precisamos utilizar da nossa liberdade para buscar experiências que gerem sentido. Como exemplo, ao invés de passar horas rolando feeds infinitos, poderíamos nos concentrar na busca de hobbies que exerçam a criatividade e desenvolvam habilidades para crescimento pessoal. Segundo eles, isso não significa negar o prazer individual, mas equilibrá-lo dentro da proposta de uma vida com mais sentido.

Apesar da solução fazer muito sentido, com foco no desenvolvimento pessoal e na saúde mental em um mundo tão caótico, ela não é capaz de atingir uma grande parcela da população. Boa parte da nossa sociedade se vê presa na rotina apertada e enfrenta longos trajetos no deslocamento entre o emprego e sua casa, sendo depois absorvida numa infinidade de tarefas domésticas, não sobrando tempo para buscar experiências que gerem mais sentido – quando se pode pensar nessa possibilidade – e, assim, serem mais felizes.

Portanto, a felicidade nos tempos pós-modernos, tanto debatida pelos autores, é subjetiva. Desde a ascensão da globalização neoliberal, em que as desigualdades sociais foram mais ampliadas, é impossível oferecer a receita da felicidade de maneira igualitária para a sociedade, quando todas as pessoas partem de pontos tão diferentes.

Apesar de tanta tecnologia e movimentos progressistas que mudaram a nossa forma de pensar, nós não eliminamos as formas de aprisionamento que reprimiam a civilização freudiana, mas as aprimoramos. Temos muitas opções de escolha ao nosso dispor, mas vivemos ansiosos com o medo de tomarmos a decisão errada.

Deixamos com que as grandes intuições tomem as decisões que regerão nossas vidas, mas, caso tudo dê errado, o peso da culpa cairá o somente sobre nós mesmos. Nem todos podem usufruir do mesmo tempo para se desenvolverem e buscarem outros modos de serem mais felizes, plenamente cientes de suas identidades e propósitos. Utilizando os conceitos de Bauman, a pós-modernidade criou turistas e vagabundos, e é extremamente vantajoso para o sistema que a civilização continue assim.

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